O Problema da Presença Feminina na Computação

Mirella M. Moro, Maio de 2014.
Projeto FAPEMIG PerCEba

Contexto Histórico

A presença feminina na Computação (assim como em outras ciências) tem sido longamente estudada e discutida. Historicamente, até 20 anos atrás, apenas 10 mulheres haviam ganhado um prêmio Nobel em ciências, no meio de aproximadamente 500 ganhadores do sexo masculino. Supostamente, a ciência deveria ser dura, rigorosa e racional; enquanto mulheres deveriam ser delicadas, fracas e irracionais. Desse modo, uma cientista mulher era uma “aberração” por definição [McGrayne 1993].

Outra constatação relevante é que mesmo quando uma mulher ou um grupo de mulheres teve importância vital no desenvolvimento científico (e na história mundial), a sua participação foi completamente apagada ou ignorada ao se registrar os fatos históricos. Especificamente na Computação, o caso mais famoso talvez seja o da invenção do primeiro computador, o ENIAC [McCARTNEY 1999]. Conforme apontado por [LIGHT 1999], quase 200 jovens mulheres (tanto civis quanto militares) trabalharam como “computadores humanos”, realizando cálculos de balística durante a Segunda Guerra Mundial. Dessas, seis foram selecionadas para programar o ENIAC que, ironicamente, apagaria seus nomes e se tornaria muito mais famoso do que suas projetistas.

A omissão das mulheres da história da Ciência da Computação perpetuou preconceitos em relação às mulheres como desinteressadas ou incapazes de trabalharem na área. Felizmente, o artigo escrito por Jennifer S. Light tentou desmistificar tal realidade, contando fielmente a importância feminina na história da criação do primeiro computador e das primeiras linguagens de programação, sem as quais um computador não passaria de uma calculadora sofisticada [LIGHT 1999].

Por exemplo, uma das primeiras mulheres a receber o devido reconhecimento na área foi Grace Hopper [Beyer 2009]. Porém, tal reconhecimento foi constantemente ignorado em função dos demais cientistas homens que na época já dominavam a área. Além disso, Hopper também lutava ativamente para apagar as diferenças de gênero através de suas roupas, sua linguagem, seus hábitos alcoólicos e seu humor. Assim como outras mulheres de sua época, Hopper conscientemente trocou casamento e família por carreira.

Em resumo, as mulheres inicialmente pagaram altos preços para trabalhar na Computação, fosse casamento e família, falta de reconhecimento, preconceito, e até sua imagem pessoal. Além disso, dificilmente é possível apontar onde e quando uma lenda ou cultura realmente começou. Na Computação é fácil: a criação do ENIAC iniciou a ignorância da participação feminina na área de Ciência da Computação (ou Tecnologia da Informação). Ironicamente, tal omissão feminina começou justamente no momento mais importante da área: a criação do primeiro computador.

Contexto Atual e Problemas Identificados

A Computação (assim como outras áreas das Ciências Exatas) tem sofrido com o estigma (e talvez preconceito) de ser uma área difícil de estudar. Desse modo, os cursos têm lidado diariamente com o pouco interesse de candidatos ao ensino superior, bem como com a grande evasão dos estudantes que inicialmente optaram pela área. Atualmente, de acordo com o CENSO 2011, existem no Brasil aproximadamente 2200 cursos superiores em Computação (incluindo bacharelados, engenharias, licenciaturas e cursos superiores de tecnologia). A Figura 1 ilustra a evolução do número de matrículas e do número de concluintes nesses cursos separados por gênero e ano.



Evolução do número de matrículas e do número de concluintes nesses cursos separados por gênero e ano


Os gráficos mostram várias informações importantes. Primeiro, o gráfico da esquerda mostra que o número de estudantes acompanhou a taxa de criação de cursos ao longo dos anos. Em 2001 eram aproximadamente 127 mil estudantes; já em 2011, eram 307 mil. Esse mesmo gráfico mostra que em 2001, a porcentagem de meninas era de aproximadamente 24%. Tal número foi reduzido para 16% em 2011. Em números absolutos, o número de meninas estudando computação quase duplicou de aproximadamente 28 mil em 2001 para 50 mil em 2011. Em contraponto, o número de meninos quase triplicou, de aproximadamente 90 mil em 2001 para 258 mil em 2011.

Segundo, o gráfico da direita mostra o número de concluintes desses cursos. Considerando que o tempo médio de conclusão seja quatro anos, dos 127 mil estudantes em 2001, apenas 22 mil concluíram em 2004 (17% de sucesso). Mais grave ainda, dos aproximadamente 300 mil alunos que ingressaram em 2008, apenas 40 mil concluiu em 2011 (13% de sucesso). Considerando os números para as meninas, das aproximadamente 54 mil matriculadas em 2008, apenas 6.900 concluíram em 2011 (12% de sucesso). É importante notar que, apesar do crescimento no número de cursos oferecidos, o número de concluintes tem diminuído consideravelmente de 2009 em diante (aproximadamente 45 mil em 2009, 42 mil em 2010 e 40 mil em 2011).

É importante notar que a área de Computação é ampla e inclui cursos de nível superior como Bacharelados em Ciência da Computação, Sistemas de Informação, Engenharia de Software e Engenharia de Computação, Matemática Computacional bem como Licenciatura em Informática, os quais são considerados nesses gráficos. Além desses, existem diversos cursos superiores de tecnologia da Computação como: Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Banco de Dados, Gestão de Sistemas de Informação, Redes de Computadores, entre vários outros.

Desse modo, podemos identificar três problemas cruciais:
1) Existem mais de dois mil cursos superiores relacionados à Computação e à Tecnologia de modo geral, em várias frontes de especialidades;
2) Apesar de esses cursos terem mais de 300 mil estudantes, a taxa de evasão é absolutamente ridícula (no qual menos de 15% dos matriculados concluem seus estudos); e
3) Apesar do alto número de estudantes, o número de meninas matriculadas têm reduzido nos últimos 10 anos de 24% para 16%, e continua a diminuir.

Aplicabilidade e Relevância dos Problemas

A Figura 2 ilustra novas perspectivas sobre os problemas mencionados na Seção 1.1.2. À esquerda é mostrado o déficit de trabalhadores na área de Tecnologia da Informação (TI) e a relação do tamanho do mercado para 2020; e à direita, é mostrada uma nova imagem a partir dos dados do Censo entre 2005 e 2008, deixando claro o tamanho da evasão dos cursos de TI. Esses números são maiores do que os mostrados na Figura 1 porque são considerados cursos técnicos de ensino médio e profissionalizantes (por exemplo, aqueles oferecidos por instituições como SENAC e SENAI).



Novas perspectivas sobre os problemas mencionados


De modo geral, a consequência dos números apresentados nas Figuras 1 e 2 é clara: o mercado brasileiro está sofrendo e vai sofrer ainda mais com a falta de profissionais de TI. Além disso, a evasão não é característica apenas dos cursos superiores, mas também dos demais níveis.


Estatísticas recentes sobre usuários de Internet nos EUA


De acordo com o IBGE [IBGE 2011], 52% dos usuários (acima dos 10 anos) de Internet no Brasil são mulheres. Complementando esses dados, de acordo com a Tabela 1, estatísticas recentes mostram que dos usuários de Internet nos EUA nos serviços online mais comuns, apenas o Twitter apresenta uma leve vantagem entre usuários do sexo masculino em relação ao sexo feminino [PewResearchCenter 2013]. Importante notar que 71% das mulheres e 62% dos homens acessam redes sociais online.

Tradicionalmente, seja no Brasil ou nos EUA, as empresas que fornecem serviços Web possuem a maioria de seus funcionários do sexo masculino. Mesmo sendo especulativa, a seguinte questão não deixa de ser válida: se os produtos desenvolvidos por homens conseguem tal sucesso entre as mulheres, se os mesmos fossem desenvolvidos por mulheres, o sucesso poderia ser ainda maior?

A Computação (assim como a Medicina, o Direito e vários outros campos) é formada por sub-áreas completamente diferentes ou complementares. Entre elas citam-se: Bancos de Dados, Redes de Computadores, Computação Gráfica, Arquitetura de Computadores, Circuitos Integrados, Inteligência Artificial, Engenharia de Software e Interação Humano-Computador. Uma pesquisa recente mostra que, no Brasil, a distribuição de pesquisadoras nessas áreas é diferenciada [MORO 2010]. Por exemplo, as sub-áreas de Bancos de Dados, Interação Humano-Computador e Engenharia de Software possuem representatividade feminina muito maior do que Circuitos Integrados e Arquitetura de Computadores. Uma questão válida que surge é: quais características específicas dessas áreas atraem ou repelem as profissionais?

Além disso, para o Brasil, o desenvolvimento da Tecnologia da Informação é essencial não apenas do ponto de vista político, mas também econômico e social. Nesse contexto, a seguir estão dois trechos fundamentais do Livro Azul [MCT 2010], os quais definem a importância da tecnologia da informação e comunicação para o País bem como salientam a urgência de levar maior conhecimento sobre tecnologia da informação às escolas e instituições públicas.

As tecnologias da informação e comunicação (TICs) estão na base de produtos e serviços de crescimento excepcional, com altíssimas taxas de inovação, que geram empregos qualificados e geralmente têm baixo impacto ambiental. Sua utilização vem penetrando e transformando progressivamente todas as atividades humanas, desde os setores econômicos tradicionais até as utilidades domésticas, o entretenimento, a segurança, a defesa, a educação, a saúde e a administração pública. O domínio das TICs passou a ser condição necessária tanto para o sucesso em qualquer uma dessas atividades quanto para a própria vida cotidiana e profissional dos cidadãos e mesmo para o avanço e a difusão do conhecimento científico e tecnológico.
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A efetiva exploração do potencial apresentado pelas TICs também depende da universalização de habilidades ou da cultura digital entre trabalhadores e cidadãos, assim como do acesso a uma eficiente infraestrutura de comunicações por parte de indivíduos, empresas, escolas e instituições públicas. Avançar simultaneamente em todas essas frentes é condição necessária para que o País possa vir a efetivamente usufruir das potencialidades dessas tecnologias, que muitos chegam a identificar como a base de uma emergente sociedade ou economia do conhecimento. Nenhum país que aspire a ser moderno e desenvolvido pode abrir mão de investir seriamente na área de TICs. Fazê-lo poderia ser comparado metaforicamente a um país que quisesse desenvolver-se em séculos passados sem se alfabetizar.


De modo geral, é possível dizer que a melhor divulgação sobre Computação e TI entre as estudantes de Ensino Médio é uma ação concreta na busca do desenvolvimento de TICs no Brasil. Tal divulgação, entre outras vantagens, deverá aproximar as estudantes da realidade das TICs, fomentando a discussão e a conscientização para os problemas atuais do país. Desse modo, as novas gerações ao ingressarem na sua formação superior, terão uma maior consciência sobre inovação e tecnologia, a qual é fundamental para a evolução do país. Além disso, a mencionada “cultura digital” também poderá ser trabalhada juntamente com a discussão prática sobre as possibilidades que o pensamento computacional define.

Referências

[BEYER 2009] Kurt W. Beyer. Grace Hopper and the Invention of the Information Age. Massachusetts Institute of Technology, 2009.
[CARVALHO 2013] Márcio L. B. de Carvalho, Luiz Chaimowicz, Mirella M. Moro. Pensamento Computacional no Ensino Médio Mineiro. In Workshop de Educação em Computação, Congresso da Sociedade Brasileira de Computação. 2013. Páginas 641-650.
[IBGE 2011] Acesso à Internet e posse de telefone móvel celular para uso pessoal 2011. Disponível em http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/acessoainternet2011.
[LIGHT 1999] Jennifer S Light. When Computer Were Women. Technology and Culture 40(3):455-483, 1999.
[McCARTNEY 1999] Scott McCartney. ENIAC: The Triumphs and Tragedies of the World's First Computer. Walker & Company, 1999.
[McGRAYNE 1993] Sharon Bertsch McGrayne. Nobel Prize Women in Science – Their Lives, Struggles and Momentous Discoveries. Joseph Henry Press, 1993.
[MCT 2010] Ministério da Ciência e Tecnologia. Livro Azul, 2010.
[MORO 2010] Mirella M. Moro, Taisy Weber, Carla M. dal Sasso Freitas. Women in Brazilian CS Research Community: The State-of-the-Art. In Aileen Cater-Steel, Women in Engineering, Science and Technology: Education and Career Challenges. IGI Global, 2010. Páginas 301-317.
[PewResearchCenter 2013] PewResearchCenter. The Demographics of Social Media Users - 2012. Disponível em http://pewinternet.org/~/media/Files/Reports/2013/PIP_SocialMediaUsers.pdf